Janita Salomé é um artista multifacetado e versátil.
Envolvido numa mística de imagem popular que, em simultâneo, toca as elites, cedo criou uma identidade própria, que o distingue no contexto musical.
A credibilidade que lhe advém do valor próprio como compositor e cantor de capacidades únicas, é sublimado pela sua aura de ser o discípulo em quem Zeca Afonso mais esperanças depositava pelas suas capacidades técnicas únicas de interpretação e canto e a quem confiava as obras de mais difícil execução.
A sua ligação aos temas de raiz popular, que explora e canta, traduz a sua forte ligação à terra e às pessoas que transmitem os seus sentimentos e a sua vida através da tradição oral do canto e da canção. Mas, desta sua particularidade, não pode ser dissociada a sua vertente de músico e compositor, de autor de diversos temas que fazem história na música portuguesa.
João Eduardo Salomé Vieira nasceu na vila alentejana de Redondo.
Janita, como ficará afectuosamente conhecido, é um dos mais novos dos cinco irmãos Salomé, todos eles herdeiros de uma forte tradição musical familiar, que o pai incentivou; a tal ponto que todos eles passaram, amadora ou profissionalmente, por carreiras musicais.

VAGABUNDOS DO RITMO

Apesar de cantar desde os nove anos, a veia artística de Janita só é verdadeiramente assumida aos 16 anos quando integra, como baterista e vocalista, o conjunto «Planície» (um grupo de baile) e, mais tarde, os «Vagabundos do Ritmo», que se dedicam a tocar versões de êxitos românticos da altura e de nomes estrangeiros incontornáveis como os «Beatles».
Mas, Janita não tinha ainda encontrado o rumo musical que desejava seguir. Esse apenas surgirá na sequência do 25 de Abril de 1974 e do seu encontro com a música de José Afonso, que o inspira a investigar e a trabalhar a tradição musical popular.
Depois de participar em discos de seu irmão Vitorino, que abraçara a tempo inteiro uma carreira musical, funda, em 1977, com ele e os restantes irmãos, o Grupo de «Cantadores de Redondo», que se dedica, ainda hoje, a perpetuar a tradição do cante alentejano.

CANTADORES DE REDONDO


Em 1980, Janita é recrutado por Zeca Afonso para o acompanhar em palco, profissionalizando-se como músico e abandonando o seu emprego de funcionário judicial. No mesmo ano em que se junta ao grupo de Zeca Afonso, Janita grava o seu primeiro disco em nome próprio: «Melro» (1980), onde explora a tradição musical alentejana mas, numa inesperada opção, regista igualmente fados de Coimbra, cujo gosto lhe fora incutido pelo pai que os cantara na sua juventude.
Nos discos que se seguem, encontra-se o rumo explorado pelo artista:

«A Cantar ao Sol» (1983, Sete de Ouro e Prémio Revelação das revistas Música e Som e Nova Gente), «Lavrar em Teu Peito» (1985) e «Olho de Fogo» (1987, Troféu Nova Gente para o melhor intérprete masculino de música ligeira).
Por estes três discos, aclamados pela crítica, passaram músicos como Pedro Caldeira Cabral, João Gil (produtor de «A Cantar ao Sol» e «Lavrar em Teu Peito»), Júlio Pereira, Rui Júnior, Carlos Zíngaro, José Peixoto (mais tarde músico dos Madredeus) ou José Mário Branco (responsável pela produção e arranjos de alguns temas de «Olho de Fogo»).
Durante este período, Janita experimenta o teatro, quer compondo música para algumas produções quer surgindo como actor. A primeira incursão aconteceu com «O Esfinge Gorda», uma peça encenada por Mário Viegas, para a qual musicou um poema de Fernando Pessoa, que ainda hoje figura no seu reportório. Seguiu-se-lhe a criação musical para a peça «Margarida do Monte», encenada por Hélder Costa, para o grupo A Barraca, onde participou também como actor ao lado de Maria do Céu Guerra. Mais tarde, musicou uma versão livre da autoria de Rita Lello de um tema popular da tradição sueca, para a peça «A Menina Júlia», de August Strindberg, encenada por Juvenal Garcês para a Companhia Teatral do Chiado. Esta, foi porém uma experiência que, em boa verdade, revisitou, depois de ter deixado a sua marca na banda sonora do filme «A Moura Encantada» (1985), com realização de Manuel Costa e Silva e argumento de António Borges Coelho, bem como, no documentário «O Pão e o Vinho» (1981), realizado por Ricardo Costa, em que participou como actor.

Em 1991, grava um álbum dedicado exclusivamente ao Fado de Coimbra, «A Cantar à Lua» e forma com os irmãos Carlos e Vitorino e Filipa Pais, os «Lua Extravagante», um colectivo vocacionado para o cruzamento da música tradicional portuguesa com a urbana.
Com «Raiano» (1994) retoma o percurso de cruzamento das tradições populares portuguesa e mediterrânea, agora sob a produção de Fernando Júdice (ex-Trovante). Este disco valeu-lhe o Prémio Blitz’94 para Melhor Voz Masculina.
Depois de uma longa ausência dos discos, Janita regressa com o álbum colectivo «Vozes do Sul» (2000), um trabalho de homenagem ao cante alentejano, inteiramente composto por modas tradicionais, o qual recebeu o prémio José Afonso 2001 atribuído ao melhor álbum de música de inspiração popular portuguesa desse ano.
O álbum de estúdio «Tão Pouco e Tanto», editado em 2003, traz cinco temas inéditos e seis novas leituras para temas do seu repertório gravado. Este trabalho é altamente elogiado pela crítica especializada e entra na lista dos melhores discos do ano de 2003. Em Março de 2004, Janita Salomé apresenta-o no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. Uma noite inesquecível com convidados especiais como Jorge Palma, Vitorino e Pedro Jóia.

FOTO: Reinaldo Rodrigues          

       JANITA, CONVIADOS E MÚSICOS, EM MARÇO DE 2004, NA APRESENTAÇÃO    DE «TÃO POUCO E TANTO», NO CENTRO CULTURAL DE BELÉM.

Na ocasião das comemorações dos 30 anos do 25 de Abril, Janita Salomé e o seu irmão Vitorino lançam o disco «Utopia», um registo dos dois concertos realizados no CCB, em Fevereiro de 1998. Dois concertos em homenagem a Zeca Afonso, onde apresentaram temas menos conhecidos deste grande músico português. Após o lançamento do álbum, seguiram-se várias apresentações pelo País.
Actualmente, as referências musicais mantêm-se, mas Janita, reconhecidamente um experimentalista, já partiu em busca de outros cantes e outras sonoridades. «Vinho dos Amantes», o seu mais recente trabalho, editado pela Som Livre, é disso exemplo.